{"id":171,"date":"2006-10-08T11:26:00","date_gmt":"2006-10-08T09:26:00","guid":{"rendered":"http:\/\/66.98.146.66\/~nanda\/blog\/?p=171"},"modified":"2010-02-21T15:22:54","modified_gmt":"2010-02-21T18:22:54","slug":"o-cacador-de-pipas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nandabalieiro.com.br\/blog\/2006\/10\/o-cacador-de-pipas\/","title":{"rendered":"O ca\u00e7ador de pipas"},"content":{"rendered":"<div><strong> Ca\u00e7ador de Pipas &#8211; Em busca de si mesmo <\/strong><\/p>\n<div>\n<p><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\/new\/imagens\/literatura\/cacador_pipas_01.jpg\" alt=\"\" width=\"130\" height=\"189\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Qual \u00e9 a imagem que voc\u00ea tem do Afeganist\u00e3o? Se voc\u00ea tiver nascido nas d\u00e9cadas de 1960 e 1970 (como eu), provavelmente guarda apenas as lembran\u00e7as de um pa\u00eds destru\u00eddo pelas sucessivas guerras que abalaram o pa\u00eds depois da invas\u00e3o russa no final dos anos 1970. Para voc\u00ea, como para mim, o Afeganist\u00e3o nada mais \u00e9 que apenas mais um pa\u00eds \u00e1rabe conturbado pelo fanatismo religioso e por todas as suas repercuss\u00f5es e conseq\u00fc\u00eancias. E porque pensamos dessa forma?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Evidentemente por sermos ocidentais, nascidos num outro continente, em um pa\u00eds de caracter\u00edsticas culturais completamente diferentes daquelas vigentes no Oriente e, mais especificamente ainda, completamente d\u00edspares das estruturas vigentes no mundo isl\u00e2mico. \u00c9 muito complicado para qualquer um de n\u00f3s entender, mesmo que minimamente, as diferen\u00e7as entre Sunitas e Xiitas, a posi\u00e7\u00e3o da mulher no contexto \u00e1rabe, o fervor religioso que mobiliza o surgimento de homens-bomba, as rixas e diferen\u00e7as entre Israel e os pa\u00edses que professam sua f\u00e9 em mesquitas ou mesmo o cotidiano e suas diferentes cores, roupas, alimentos, cheiros&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo quando nos debru\u00e7amos nos livros e investimos tempo e esfor\u00e7o no estudo da hist\u00f3ria, h\u00e1bitos, dia a dia, trabalho, religi\u00e3o e qualquer outro aspecto marcante da cultura \u00e1rabe corremos o risco de inferir, interpretar ou simplesmente pensar naqueles povos e regi\u00f5es colocando como base de an\u00e1lise os nossos pr\u00f3prios contextos e realidades.<\/p>\n<div><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\/new\/imagens\/literatura\/cacador_pipas_02.jpg\" alt=\"\" width=\"130\" height=\"189\" \/><\/strong><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 85%;\"> <em>Quando \u00e9ramos crian\u00e7as, Hassan e eu trep\u00e1vamos nos choupos da entrada da casa de meu pai e fic\u00e1vamos chateando os vizinhos, usando um caco de espelho para mandar reflexos de sol para as suas casas. Sent\u00e1vamos um defronte do outro, nos galhos mais altos, com os p\u00e9s descal\u00e7os pendurados no ar e os bolsos das cal\u00e7as cheios de amoras e nozes secas. Fic\u00e1vamos nos alternando com o espelho enquanto com\u00edamos amoras, jogando frutos um no outro, entre risinhos e gargalhadas. (Cap. Dois)<\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao fazermos isso estaremos imediatamente comparando e, a partir desses paralelos tra\u00e7ados entre o mundo ocidental e oriental, \u00e9 praticamente irremedi\u00e1vel que consideremos nossa realidade superior a dos povos \u00e1rabes. N\u00e3o concordo com isso, pelo contr\u00e1rio, tento pensar de forma isenta, percebendo as diferen\u00e7as e buscando tra\u00e7ar roteiros hist\u00f3ricos que me permitam compreender a origem dos h\u00e1bitos que caracterizam diferentes sociedades. Minha forma\u00e7\u00e3o original em hist\u00f3ria me leva a pensar e agir dessa forma, no entanto, por mais que queira, algumas vezes me vejo depreciando o que vem de outras culturas e enaltecendo o que nos \u00e9 pr\u00f3prio e particular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ideal \u00e9 que possamos vivenciar experi\u00eancias nos pr\u00f3prios pa\u00edses que estudamos para que, a partir desse encontro com a realidade, do vagar pelas ruas, da conversa com as pessoas daquele povo, da percep\u00e7\u00e3o da arquitetura e da arte, da possibilidade de saborear os pratos t\u00edpicos ou da visualiza\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es e do cotidiano, possamos ter uma vis\u00e3o menos preconceituosa de outros mundos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 evidentes e reais dificuldades em qualquer tentativa de configurar visitas a todos os pa\u00edses do mundo. N\u00e3o s\u00e3o apenas limites financeiros que travam qualquer tentativa nesse sentido, mas tamb\u00e9m familiares, de trabalho, tempo ou mesmo culturais. Por isso mesmo, quando podemos viajar para outros contextos a partir da leitura estamos criando pontes que podem, e devem, contribuir para que superemos as barreiras que se criam entre as nossas e as outras culturas e realidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\/new\/imagens\/literatura\/cacador_pipas_03.jpg\" alt=\"\" width=\"130\" height=\"189\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 85%;\"><em><span style=\"font-size: xx-small;\">Todo ano, no primeiro dia em que come\u00e7a a nevar, fa\u00e7o a mesma coisa: saio de casa bem cedo, pela manh\u00e3, ainda de pijama, apertando os bra\u00e7os contra o peito para enfrentar o frio. Vejo a entrada, o corro de meu pai, o muro, as \u00e1rvores, os telhados e as colinas cobertos por mais de um palmo de neve. Sorrio. O c\u00e9u est\u00e1 limpo e azul, e tudo \u00e9 t\u00e3o branco que os meus olhos chegam a arder. Enfio um punhado de neve na boca, fico ouvindo aquele sil\u00eancio abafado que s\u00f3 \u00e9 rompido pelos grasnidos dos corvos. Des\u00e7o os degraus, descal\u00e7o, e chamo Hassan para vir tamb\u00e9m. (Cap. Seis)<\/span><\/em><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ca\u00e7ador de pipas, de Khaled Hosseini, foi um aut\u00eantico divisor de \u00e1guas na minha compreens\u00e3o particular do Afeganist\u00e3o (e acredito que tamb\u00e9m tenha sido para os milhares de leitores que transformaram o livro num best-seller no Brasil). E o mais interessante de tudo isso \u00e9 que n\u00e3o estamos falando, \u00e9 claro, de um livro de Hist\u00f3ria, pelo contr\u00e1rio, trata-se de um romance.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E por se tratar de um romance \u00e9 que ganha maior impacto e repercuss\u00e3o. Hosseini nos coloca em contato n\u00e3o apenas com a imagem e a realidade de um pa\u00eds que desconhecemos, ele abre as cortinas e nos permite ver aquilo que est\u00e1 presente na cabe\u00e7a e at\u00e9 mesmo no cora\u00e7\u00e3o daquele povo atrav\u00e9s de seus personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o parecemos distantes daquilo que \u00e9 descrito e apresentado, vamos aos poucos sendo introduzidos num universo que nos \u00e9 pr\u00f3ximo justamente por estarmos sendo inseridos nele a partir daquilo que nos torna verdadeiramente humanos, os nossos sentimentos. E que sentimentos s\u00e3o esses?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignleft\" src=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\/new\/imagens\/literatura\/cacador_pipas_04.jpg\" alt=\"\" width=\"130\" height=\"189\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em><span style=\"font-size: 85%;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Enquanto as palavras do Cor\u00e3o ressoavam pela sala, lembrei da velha hist\u00f3ria de baba enfrentando um urso negro l\u00e3 no Baluquist\u00e3o. Meu pai passou a vida inteira enfrentando ursos. Perdeu a jovem esposa. Teve de criar um filho sozinho. Precisou abandonar a sua querida terra natal, o seu watan. Conheceu a pobreza. A indignidade. At\u00e9 que, afinal, apareceu um urso que ele n\u00e3o conseguiu derrotar.<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o aqueles que unem pais e filhos, amigos pr\u00f3ximos e tamb\u00e9m os que nos conectam aos nossos companheiros no amor. Portanto estamos nos referindo a aquilo que \u00e9 mais universal entre os homens e que, como conseq\u00fc\u00eancia disso, sensibiliza qualquer pessoa, independentemente de sua cor, credo, g\u00eanero, etnia, time de futebol&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria de um romance se universaliza quando explora justamente as caracter\u00edsticas que nos tornam mais pr\u00f3ximos enquanto seres humanos. Romeu e Julieta, Hamlet, Othelo e as principais obras de William Shakespeare continuam sendo lidas por novas e novas gera\u00e7\u00f5es de habitantes desse planeta porque falam com profundidade sobre o amor e o \u00f3dio, a raiva e o perd\u00e3o, a paz e a guerra, a trai\u00e7\u00e3o e a fidelidade&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Shakespeare se tornou o autor mais conhecido e respeitado da literatura porque seus personagens n\u00e3o se distanciam daquilo que n\u00f3s somos em nossas vidas. \u00c9 tamb\u00e9m nessa vertente que Khaled Hosseini desenvolve sua obra O ca\u00e7ador de pipas. O pr\u00f3prio t\u00edtulo nos mobiliza e aproxima da leitura por despertar reminisc\u00eancias da inf\u00e2ncia, do alegre bailado das pipas nos c\u00e9us em uma constante e sadia disputa por espa\u00e7o e evid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Somos os ca\u00e7adores de pipas n\u00e3o apenas na inf\u00e2ncia, e \u00e9 nesse ponto que reside a hist\u00f3ria dos personagens Amir e Hassan, irmanados por uma hist\u00f3ria de vida comum nos primeiros anos de suas exist\u00eancias apesar das evidentes diferen\u00e7as sociais relacionadas a origem familiar de ambos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Amir \u00e9 o \u0093primo\u0094 rico, Hassan o pobre. O primeiro \u00e9 o senhor da casa em que vive com o pai, sem a presen\u00e7a da m\u00e3e, falecida em seu parto. O segundo tamb\u00e9m \u00e9 \u00f3rf\u00e3o da presen\u00e7a materna e vive com o pai, servi\u00e7al da mais completa confian\u00e7a de seu patr\u00e3o, o pai de Amir. As diferen\u00e7as sociais existentes entre eles existem nas roupas, nas casas, nos brinquedos e, at\u00e9 mesmo, nos alimentos que consomem, mas inexistem na rela\u00e7\u00e3o de proximidade e amizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sociedade n\u00e3o vislumbra esse encontro e conviv\u00eancia t\u00e3o especial, permeado pela amizade descompromissada e fiel pelo fato dos meninos serem de etnias diferentes dentro do sistema de castas existente no Afeganist\u00e3o. No entanto, para os dois garotos, n\u00e3o h\u00e1 preconceito algum, eles vivem o mais singelo e verdadeiro sentimento que move os verdadeiros amigos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, no entanto, segredos familiares que eles desconhecem. Existem tamb\u00e9m diferentes atitudes dos dois meninos no que se refere \u00e0 lealdade que reservam um ao outro. S\u00e3o t\u00e3o fortes essas rela\u00e7\u00f5es\/situa\u00e7\u00f5es que os elos que os unem numa forte e aparentemente indestrut\u00edvel rela\u00e7\u00e3o se despeda\u00e7am quando eles t\u00eam perto de 10 anos de idade. Se n\u00e3o bastassem as circunst\u00e2ncias da vida pessoal, a hist\u00f3ria do pa\u00eds passa por grandes reviravoltas e as lutas pol\u00edticas internas do Afeganist\u00e3o os afastam por um longo per\u00edodo de suas vidas. Ser\u00e1 que \u00e9 para sempre?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse ponto que um elemento comum de suas vidas na inf\u00e2ncia cria pontos de reencontro entre Amir e Hassan. S\u00f3 que os espinhos e as mazelas do passado se erguem entre eles e s\u00f3 podem ser superados a partir de um reencontro. Mas, como reunir pessoas depois de mais de 20 anos que vivem em realidades diferentes, em pa\u00edses distantes? Hassan amargou os duros anos das guerras de seu pa\u00eds enquanto Amir emigrou para os Estados Unidos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Emocione-se a cada p\u00e1gina, aprenda com cada cap\u00edtulo uma nova li\u00e7\u00e3o, entre num diferente ritmo de leitura, mais reflexivo e passional, muito pr\u00f3prio de uma cultura fascinante que pouco conhecemos e descubra os encantos de O ca\u00e7ador de pipas. Imperd\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><strong><em><span style=\"font-size: 85%;\"><span style=\"font-size: xx-small;\">Jo\u00e3o Lu\u00eds Almeida Machado Doutorando pela PUC-SP no programa Educa\u00e7\u00e3o: Curr\u00edculo: Mestre em Educa\u00e7\u00e3o, Arte e Hist\u00f3ria da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie-SP; Professor universit\u00e1rio e Pesquisador atuando no Centro Universit\u00e1rio Senac em Campos do Jord\u00e3o; Editor do <\/span><a href=\"http:\/\/www.planetaeducacao.com.br\/new\/colunas2.asp?id=514\" target=\"_blank\"><span style=\"color: #330033; font-size: xx-small;\">Portal Planeta Educa\u00e7\u00e3o.<\/span><\/a><\/span><\/em><\/strong><\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ca\u00e7ador de Pipas &#8211; Em busca de si mesmo Qual \u00e9 a imagem que voc\u00ea tem do Afeganist\u00e3o? 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