{"id":4813,"date":"2010-09-12T18:30:17","date_gmt":"2010-09-12T21:30:17","guid":{"rendered":"http:\/\/nandabalieiro.org\/blog\/?p=4813"},"modified":"2015-04-05T12:59:37","modified_gmt":"2015-04-05T12:59:37","slug":"dia-12-um-conto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nandabalieiro.com.br\/blog\/2010\/09\/dia-12-um-conto\/","title":{"rendered":"Dia 12: Um conto"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">Um conto que eu amo, acho lindo, perfeito. E mais ainda porque a autoria \u00e9 do Bruno (sim, o P\u00ea). Espero que ele n\u00e3o me esgane por eu postar aqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><a href=\"https:\/\/nandabalieiro.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/random_afternoon_by_loLO_o_large.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-4822\" title=\"random_afternoon_by_loLO_o_large\" src=\"https:\/\/nandabalieiro.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2010\/09\/random_afternoon_by_loLO_o_large-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><\/a><\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">O GRANDE AMOR<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todos os dias, Elauro sa\u00eda de sua casa para trabalhar \u00e0s sete horas da manh\u00e3. N\u00e3o que precisasse chegar t\u00e3o cedo no servi\u00e7o, ou que a sua casa fosse distante a ponto de se demorar quase uma hora para chegar. Fazia isso por que gostava de ser o primeiro na empresa. Uma vez, um representante de vendas, que foi transferido da cidade vizinha, por causa do \u00f4nibus, chegava \u00e0s seis e meia. Nessa \u00e9poca, Elauro sa\u00eda de casa \u00e0s seis para poder chegar antes que o matutino vendedor. Possu\u00eda as chaves da firma, e se algu\u00e9m chegasse antes do que ele, j\u00e1 era motivo de irrita\u00e7\u00e3o para o dia todo.<br \/>\nSua mulher, Lindalva, acordava mais temprano ainda. Antes de o sol nascer, j\u00e1 estava ela a preparar o caf\u00e9, deixar a manteiga para fora da geladeira, de modo a estar na consist\u00eancia perfeita para quando ele acordar, cortar as fatias de p\u00e3o todas do mesmo tamanho, pegar o jornal na garagem e, por fim, despert\u00e1-lo com palavras de carinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lindalva era isso, uma mulher perfeita e atenciosa com o seu marido. Elauro n\u00e3o tinha do que se zangar, no entanto, nada dizia que pudesse demonstrar sua alegria. A mulher, serena, aceitava aquela indiferen\u00e7a com carinho, n\u00e3o pedindo nada al\u00e9m da sua companhia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elauro sa\u00eda para trabalhar feliz, contente por a rua estar t\u00e3o vazia, o sil\u00eancio ser t\u00e3o envolvente, \u201cDeus ajuda quem cedo madruga!\u201d. E guiava o seu Fiat pela avenida, cantando as m\u00fasicas da r\u00e1dio e beijando com as m\u00e3os as marchas que delicadamente mudava. Quem o visse passando t\u00e3o alegre imaginaria que o dito cujo n\u00e3o tinha problemas. E n\u00e3o tinha mesmo. Sua vida era como ele sempre quis: calma, singela e insuportavelmente mon\u00f3tona. Mas era assim mesmo que ele gostava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No trabalho, podia se dizer que era mais sossegado ainda: vinte e quatro anos de servi\u00e7o e o trof\u00e9u de melhor empresa do ramo, de doze anos atr\u00e1s, reluzia ainda em sua mesa gra\u00e7as \u00e0s infinitas lustradas que duravam expedientes. Quem quisesse falar com ele, deveria revestir-se primeiro de muita paci\u00eancia. O famigerado era t\u00e3o calmo para falar como para viver. E a vida seguia assim, nas monocrom\u00e1ticas imagens das suas pacatas semanas e meses, e anos, e d\u00e9cadas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas um dia entrou uma mulher em sua sala. Linda. Veio tratar de alguns neg\u00f3cios do seu marido. T\u00e3o perfumada, t\u00e3o doce era o seu cheiro. Partiu logo, deixando apenas o aroma de seu perfume no ar. Elauro encantou-se com aquela suave fragr\u00e2ncia, fazia-o lembrar de um grande amor que teve h\u00e1 muito tempo. O Grande Amor. Mas n\u00e3o era aquela mo\u00e7a. Como era mesmo o nome? N\u00e3o lembrava. Precisava recordar o nome, pelo menos o nome. E o perfume? Ajudaria saber a marca, comprar um frasco e sentir todos os dias aquele delicioso odor que o fazia escapulir de seu quadril\u00e1tero universo para cair enfim nas claras almofadas das quimeras?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chamou o estagi\u00e1rio. \u201cConhece esse perfume?\u201d \u201cN\u00e3o, senhor.\u201d Droga! Precisava se recordar de alguma forma. S\u00f3 se&#8230; Claro! Chamou a secret\u00e1ria e pediu que ligasse para aquela mulher. Enquanto aguardava a liga\u00e7\u00e3o, pensava numa forma de fazer t\u00e3o indiscreta pergunta. Mas estava convicto a faz\u00ea-la. O telefone tocou. Ele fraquejou em atender. Levantou-se, queria ir at\u00e9 a recep\u00e7\u00e3o pedir que a secret\u00e1ria cancelasse o pedido. Tocou de novo. Sentou-se de modo a acomodar-se bem, pegou um papel e uma caneta e atendeu. Na hora, n\u00e3o pensou em modo algum de introduzir a tal pergunta, mas marcou para ela voltar \u00e0 tarde, acertar o contrato. A mulher ent\u00e3o marcou o novo hor\u00e1rio com a secret\u00e1ria, que abismada, n\u00e3o acreditava na rapidez da decis\u00e3o de Elauro. Normalmente esses contratos demoravam semanas para serem efetivados. Havia algo estranho nele, estranh\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou a hora marcada. A mulher entrou j\u00e1 querendo tratar dos neg\u00f3cios, como que a aproveitar a repentina acelera\u00e7\u00e3o das de-cis\u00f5es do sossegado empres\u00e1rio. Devia correr, pois poderia ser coisa passageira. Sua fama era not\u00f3ria em dar ch\u00e1 de cadeira e outras i-guarias mais ex\u00f3ticas, como telefones e agendas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com ela, entrou de novo o perfume, dessa vez com uma car-ga mais forte. Devia ter refor\u00e7ado no almo\u00e7o. Talvez o frasco esti-vesse ali, dentro da bolsa. Talvez no carro. O fato \u00e9 que Elauro con-cordava hipnotizado com todas as cl\u00e1usulas, nem sequer pensava nelas. Seus sentidos todos estavam focados no olfato, que respondia positivamente por todos os outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tratados os primeiros itens do contrato, a mulher mostrou-se cansada, esbo\u00e7ando um bocejo. Era a hora! \u201cN\u00e3o pude deixar de notar que a senhora usa um perfume que muito me agrada, mas n\u00e3o me recordo o nome&#8230;\u201d \u201c\u00c9 Paco Rabane&#8230; \u00e9 do meu marido, adoro us\u00e1-lo.\u201d Sim, era esse o perfume. Essa pequena informa\u00e7\u00e3o rendeu a firma\u00e7\u00e3o mais r\u00e1pida de um contrato da vida de Elauro. A mulher saiu contente e elogiada, pensando \u201cEle n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o mal-humorado como todos dizem, nem t\u00e3o minucioso, aceitou sem rezingar todas as cl\u00e1usulas!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elauro n\u00e3o se cabia na pequena sala. \u201cVou sair\u201d, disse \u00e0 se-cret\u00e1ria. Passou a m\u00e3o nas chaves do carro e seguiu para o centro. O sinal amarelo viu pela primeira vez a carro\u00e7aria do Fiat passar por debaixo de si, \u00e0 toda velocidade. Chegou \u00e0 perfumaria, pediu um Paco Rabane. \u201c\u00c9 presente?\u201d, perguntou a vendedora. \u201cSim\u201d, res-pondeu sorridente como h\u00e1 muito tempo n\u00e3o costumava falar, tanto que se sentiu um bocado acanhado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Chegou mais cedo em casa, a mulher nem tinha preparado o caf\u00e9 da tarde, o qual era servido religiosamente \u00e0s seis horas, sempre na mesma temperatura, na mesma x\u00edcara, no mesmo \u201cmesmo\u201d de sempre. \u201cVamos jantar fora\u201d, disse a ela que, espantada, sorriu. \u201cO que aconteceu? A empresa ganhou outro trof\u00e9u?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram a um restaurante maravilhoso. Simples, mas com uma deliciosa comida. Pediram uma cerveja. Tomaram juntos, brindando a beleza da vida que levavam. \u201cSemana que vem vou vender o Fiat\u201d, disse com o mesmo sorriso que o acompanhava desde \u00e0 tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espanto da mulher s\u00f3 n\u00e3o foi maior do que a sua felicida-de. As simples cores do mesmo mundo de sempre se restauravam magicamente, e a lua brilhava mais doce.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A noite pedia para n\u00e3o acabar nunca jamais. Deram-se os bra\u00e7os e desceram para a pra\u00e7a, ouvindo a bela sinfonia da cidade. Os motores dos carros na avenida, o tilintar das gargantas \u00e0 dist\u00e2ncia, as folhas arrastadas pelo vento, tudo era m\u00fasica. \u201cTenho um presente para voc\u00ea\u201d, disse o homem. \u201cO que \u00e9?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Elauro entregou o pequeno embrulho \u00e0 mulher. Ela abriu desconfiada. \u201cUm perfume&#8230; voc\u00ea nunca me deu um perfume\u201d. O marido abra\u00e7ou-a, beijou-a com uma fome de car\u00edcias de vinte e poucos anos, e disse docemente. \u201c\u00c9 que s\u00f3 hoje eu descobri o perfume que voc\u00ea gosta\u201d. \u201cSim\u201d, disse emocionada, \u201cEu usava quando era mais nova, faz tanto tempo&#8230; muito obrigada\u201d. Ent\u00e3o outro abra-\u00e7o mais caloroso aconteceu, e o universo parou naquele instante. Os carros j\u00e1 n\u00e3o corriam, o vento j\u00e1 n\u00e3o varria mais as folhas. Todos pararam para vislumbrar O Grande Amor.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p style=\"text-align: justify;\">Imagem <a href=\"http:\/\/weheartit.com\/entry\/3826001\" target=\"_blank\">We \u2665 It.<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um conto que eu amo, acho lindo, perfeito. E mais ainda porque a autoria \u00e9 do Bruno (sim, o P\u00ea). Espero que ele n\u00e3o me esgane por eu postar aqui. 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